domingo, 5 de abril de 2015

SALTO PASCAL

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Entre as aves, a águia é a que vive mais, cerca de setenta anos. Mas para atingir essa idade, aos quarenta ela deve tomar uma difícil decisão: nascer de novo.
Pois aos quarenta suas unhas ficam compridas e flexíveis, dificultando agarrar as presas com as quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo se curva. As asas, envelhecidas e pesadas, dobram-se sobre o peito, impedindo-a de empreender voos ágeis e velozes.
Restam à águia duas alternativas: morrer ou passar por uma dura prova, ao longo de 150 dias. Esta prova consiste em voar para o cume de uma montanha e abrigar-se num ninho cravado na pedra. Ali, ela bate o bico contra a pedra, até quebrá-lo. Espera, então, crescer o novo bico, para poder arrancar as suas unhas.
Quando as novas unhas despontam, a águia puxa as velhas penas e, após cinco meses, crescidas as novas, ela atira-se renovada ao voo, pronta para viver mais trinta anos.
No noviciado, aprendi que, ao longo da existência, a possibilidade de nossa sobrevida depende, muitas vezes, de seguir o exemplo da águia. Quem se entrega, abatido, ao peso do sofrimento e das dificuldades, tende a abreviar seus dias. Deixa de viver como quem voa e passa a sobreviver como um réptil que rasteja.
Reaprender a voar é ousar recolher-se para começar de novo. Eis a sabedoria de todas as religiões tradicionais ao exigir de seus noviços um tempo de reclusão. O mesmo ocorre em muitas nações indígenas, quando o jovem, para ser considerado adulto, é recolhido a uma cabana isolada, onde o xamã o submete a provas e o introduz em conhecimentos específicos.
Mas é preciso voar até a montanha. De cima, vê-se melhor. Talvez por isso Deus, ao criar o ser humano, tenha colocado a cabeça acima do coração. Ver com as emoções é correr o risco de desfigurar os desenhos. Os contornos mostram-se muito mais nítidos quando observados com serenidade.
E saber esperar. Primeiro, ousar perder o que envelheceu: o bico, as unhas, as penas. Despojar-se do que atravanca os nossos passos. Segundo, aguardar pacientemente o tempo da maturação. Enfim, dar o salto pascal, abrir as asas para a vida e, sem medo, empreender o voo rumo a novos horizontes.
Por Frei Betto

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A luta começou desde que a igreja deixou de ser igreja.
E isso faz tempo…
A igreja que era responsável por anunciar a graça, o convite de Deus à salvação, resolveu estabelecer suas metas de divisão para manter-se como instituição.
O convite era simples: “Tome conhecimento do quanto Deus o ama e entenda que as “portas” estão abertas para você!”
Simples e bem de acordo com a incapacidade e falibilidade humana.
Mas a gente não entendeu bem as palavras de Paulo em seu cuidado com a igreja e fez toda esta balburdia institucionalizada; toda esta separação absurda que faz com que a salvação seja um monopólio e não uma dádiva que também (desculpe-me lembra-lo), não cabe a nós administrarmos.
O trabalho é sim, do Espirito santo e só.  Sua função é “pescar” – se é que você é um pescador e não um “tripulante” de mais um “cruzeiro evangélico”, ou de qualquer outra denominação que por conta de tanta celebração, deixou Jesus no “porão” para que não houvessem interrupções que lembrassem o que era igreja ou o que era pescar homens.
Talvez você, diante dos hospedes do navio (aqueles que, quer você queira ou não, tem entrada gratuita garantida para pelo menos, tentarem “crescer” ao seu lado e que, na maioria das vezes não percebem que Jesus está preso no porão), talvez, nesse barco do amor fingido e interessado você  não os queira por perto “atrapalhando” as metas de seu reino (falo do seu reino, não do Reino de Deus), “travando” a sua “vida abundante” de dinheiro e poder, ou simplesmente, atrapalhando o seu cenário “perfeito” com suas imperfeições.
Talvez você se comporte como aqueles fariseus que, vez por outra, estavam fazendo o mesmo que você ou sua igreja fazem.
Eu me lembro de Jesus ter dito a eles quando foi interrompido porque estava comendo com pecadores e gente de má fama:  ”… Os que tem saúde não precisam de médicos, mas sim os doentes. Eu vim para chamar os pecadores e não os bons”
Não se lembra de ter lido isso em algum lugar??  Se não lembra, eu o ajudo: Está no livro de Marcos no capitulo 2, verso 17.
Desculpe-me se pareço por demais, “duro” com o meio chamado “Cristão”…  É que o mundo em suas dores, com a falta do convite à mesa  - o convite que você insiste em não entregar – , tem sofrido muito mais que você quando se sente ofendido…
Vale lembrar, que você até convida o “pecador” para ir à sua igreja, mas convenhamos: Mesa é bem diferente de “plateia”.
Cá entre nós… Conta pra mim:
Você tem é ódio do mundo??  Quer mais, é que o pecador tenha como fim, o inferno porque ele não simpatiza muito com você??
Ou seu discurso de ódio é somente porque você não se julga mais pecador??
Pode até parecer brincadeira, mas eu gostaria de ouvir o que você, cristão, tem a dizer sobre isso.
Eu sei, eu sei… Você vai me dizer que ama ao pecador… Ama mesmo?
Desculpe-me mais uma vez, mas você não ama, não…  Amor é outra coisa.
Não sou eu que o julga, mas sim, o mundo que o cobra…E com muitas e muitas razões.
Discorda?  Pergunte a Jesus.  Isto é… Se ele não estiver preso no porão de seu navio…
O fruto de tais “pescadores” tem sido este. Não merecem ser chamados de “Pescadores de homens”.
Além de “pescarem” apenas para abastecerem a seus barcos, tendem a se tornar “peixeiros”. Querem eles mesmos, “limpar” o homem, tentando fazer o que somente o Espirito de Deus pode fazer…  E Ele não precisa da sua ajuda.
Sua tarefa era entregar o convite; “pescar”.
Promovido, de pecador a pescador, você só ganhou a letra “S” e nada mais. Continua pecador, dependente da mesma graça que, em suas atitudes, parece julgar só sua.
A nova letra em sua alcunha deveria lembrar SABEDORIA e não “SUJEIRA” como infelizmente tem sido.
O mundo… Quem diria?!  O mundo,  está lembrando a você que você, é tão carente da graça de Deus quanto ele.
É triste que seja desta forma, mas…
Se você não tem ouvido a Deus…
Pelo menos ouça às dores do Mundo.
por Rogério Ribeiro.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O mistério da prosperidade dos maus- Salmo 72


Capítulo 72
1 Salmo de Asaf. Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que têm o coração puro! 
2 Contudo, meus pés iam resvalar, por pouco não escorreguei, 3 porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: 4 não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. 
5 Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens. 
6 Eles se adornam com um colar de orgulho, e se cobrem com um manto de arrogância. 
7 Da gordura que os incha sai a iniquidade, e transborda a temeridade. 
8 Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador.
9 Com seus propósitos afrontam o céu e suas línguas ferem toda a terra. 
10 Por isso se volta para eles o meu povo, e bebe com avidez das suas águas. 
11 E dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto? 
12 Assim são os pecadores que, tranquilamente, aumentam suas riquezas. 
13 Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos?
14 Pois tenho sofrido muito e sido castigado cada dia. 
15 Se eu pensasse: Também vou falar como eles,  seria infiel à raça de vossos filhos. 
16 Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, 17 até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. 
18 Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. 
19 Eis que subitamente se arruinaram, sumiram, destruídos por catástrofe medonha. 
20 Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando-vos, desprezais a sombra deles.
21 Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, 22 eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. 
23 Mas estarei sempre convosco, porque vós me tomastes pela mão.
24 Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. 
25 Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. 
26 Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus. 
27 Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós. 
28 Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião.

por Sirlana Lima